Indy 500 e GP de Mônaco: automobilismo é uma coisa linda

Quando Fernando Alonso anunciou, no início de abril, que iria trocar o GP de Mônaco pelas 500 Milhas de Indianápolis, acho que nem ele entendia a jornada que estava prestes a começar.

Que Alonso já entregou a McLaren para os céus, isso todos sabemos. Desde o ano passado se acumulam os memes, piadinhas e patadas via rádio do espanhol que, como vários antes dele (e junto com ele, não é mesmo, Button?), encontram no sarcasmo um jeito de lidar com as frustrações. Se não se pode vencer, vamos pelo menos rir.

E de mais a mais, não é que Alonso tenha algo a provar, pelo contrário. Não acho que exista muita disputa em relação ao fato de que Fernando é um dos melhores – se não o melhor – piloto do grid da última década, pelo menos.

O que acomete Alonso, na realidade, é uma extrema falta de sorte. Desde sua primeira estadia na McLaren, em 2007, ele parece estar sempre no lugar errado, na hora errada. Gastou tempo demais em picuinhas e projetos equivocados e hoje, na posição de super-veterano, se vê na posição de ter que aceitar que a história de sua carreira vai ser pautada pelo fato de que poderia ter sido muito mais.

Até que veio a história das 500 Milhas de Indianápolis. Uma costura claramente comercial, uma excelente jogada de marketing: para a McLaren, a chance de oferecer um afago para seu principal piloto e, mais ainda, reforçar seu lugar de honra no automobilismo em um dos templos do esporte. Para a Honda, a chance de se redimir do completo fracasso na F1. Para a Indy, obviamente, um chamariz como nenhum outro – a curiosidade move o mundo e os ponteiros de audiência. E, como a gente adora um underdog, uma jornada do herói, um Rocky Balboa para chamar de nosso, quem liga para as picuinhas passadas, para os papelões antigos, para a antipatia que já senti dele: Alonso agora é da galera.

E, como uma boa história de Rocky Balboa, deixaram a gente acreditar. Alonso classificou bem, andou bem, liderou mais de vinte voltas e tinha uma chance muito real de vencer.

Mas é claro que o motor Honda tinha que estourar, como já fez tantas vezes na temporada da F1. A ironia é tão grande e tão óbvia que chega a doer.

Alonso saiu do carro baqueado, imagino, mas certamente muito mais satisfeito do que em qualquer domingo de F1 dos últimos três ou quatro anos. Ele é desses que gosta de carro e de correr. Pode ficar tranquilo, Alonso. Você entrou para a história.

(Não se pode dizer o mesmo da Honda, que deve estar enfronhada debaixo da cama de vergonha até agora.)

Belezinho. (@IMS)

E, como automobilismo é uma coisa linda, no final fomos presenteados com uma disputa animal entre Takuma Sato e Helio Castroneves. A vitória ficou com Sato, ex-F1, fã de Senna, simpatia pura, para agradar ainda mais esse coraçãozinho que pode até ser da F1, mas hoje bateu mais forte pela Indy.

***

Para não dizer que não falei do GP de Mônaco: deu Vettel, seguido por Raikkonen e Ricciardo. Graças à uma classificação ruim, Hamilton terminou em sétimo, dando a oportunidade para Sebastian abrir uma distância confortável – 25 pontos – na liderança do campeonato.

(Estou irritada com Hamilton, que fez um comentário bem marmota sobre o desempenho de Alonso na classificação da Indy. Se me perguntar, isso só mostra a diferença entre ser Piloto, com letra maiúscula, e piloto-de-F1. Hamilton está confortável por demais sendo apenas o segundo.)

A corrida em si, verdade seja dita, foi bem morninha. O que não entendi foi todo o babado em torno da troca de posições entre Vettel e Raikkonen, que saiu na pole.

De fato, a Ferrari demorou mais no pit stop do finlandês, o que permitiu que o alemão voltasse à frente após sua própria parada. Mas gritar que “é ordem!” para tudo é muito simplista. Para começar, o ritmo de Vettel era claramente superior ao de Kimi. E é só olhar para a tabela do campeonato para entender quem é o primeiro piloto.

Não acho mesmo que tenha sido algo orquestrado pela Ferrari. Porém, mesmo que tenha sido, não é injustificado, ainda mais considerando a diferença entre o desempenho dos dois nesse ano. Entendo que a fama ferrarista precede, mas nem tudo é ordem e nem toda ordem é uma sacanagem. A gente esquece, mas F1 é um esporte de equipe, e toda equipe tem um jogador principal.

GP da Austrália: mudanças e problemas

Lembra quando você estava na faculdade e precisava entregar um trabalho de última hora, aí você até sabia mais ou menos o que tinha que fazer, mas tem que correr para mandar aquele e-mail com aquele anexo em Word para o professor às 23h57 porque “se o prazo é até o fim do dia, então é até às 23h59 e é isso aí” e depois você não quer nem ler o que escreveu para não sentir vergonha do professor na aula seguinte?

O GP da Austrália desse domingo foi meio isso – dá pra ver que tem uma coisa legal ali, mas tá confuso.

O resultado foi o melhor possível: depois de algumas temporadas de domínio absoluto da Mercedes, ver uma vitória de Sebastian Vettel, graças a um erro de estratégia da equipe de Lewis Hamilton e a um acerto da Ferrari, é uma mudança mais do que bem vinda. Até mascara que, no fundo no fundo, não foi uma prova interessante, do ponto de vista esportivo.

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Carinhas diferentes no pódio – ainda bem. (Fonte: @f1)

Sob o novo comando da Liberty Media, depois de quatro décadas de Bernie Ecclestone na veia, a F1 está diferente – para melhor e pior. As mudanças mais significativas, para mim, são aquelas que deve ter uns cinco anos que eu xingo muito no Twitter pedindo para acontecer: finalmente, a F1 acordou para a vida e passou a enxergar a internet como amiga, não inimiga.

A pré-temporada inteira e essa última semana foram recheadas de posts no Facebook, Instagram Stories, compartilhamento de vídeos e o que mais você imaginar. Agora pensa em todo mundo que estava assistindo a corrida sozinho em casa de madrugada, ou estava na rua, e pôde acompanhar um feed oficial, com a possibilidade de comentar e compartilhar com mil outros espectadores? A F1 não é um esporte de estádios, é de muita gente sozinha sentada em seus respectivos sofás. A arquibancada dela tem que ser a internet – e que bom que finalmente sacaram isso, estou muito satisfeita, obrigada, viu.

O problema é que, para tanta desenvoltura no Instagram, faltou um mínimo de organização na hora do vamo vê. A transmissão da prova foi abaixo da crítica: só de erros nos gráficos eu poderia encher um texto inteiro.

E o problema é que, com a falta de ultrapassagens (cortesia do novo regulamento técnico), a transmissão vai ter trabalho dobrado para tornar aquelas duas horas mais interessantes. Gráficos, rádios, diferentes câmeras, outros ângulos, informações exclusivas – tudo isso vai ter um papel maior. Então se preparem, faz favor.

Outra turminha que precisa se preparar é o time da Globo. Rapaz, Galvão Bueno desistiu real, né. Eu até me divirto com comentários mais azedos: Lance Stroll, coitado, virou “aquele menino da Williams”. Mas acertar o nome dos pilotos em pista (alô Jonathan Palmer) é o mínimo. Assim como os elementos visuais, os comentários serão extremamente relevantes em uma F1 sem tanta ação na pista. E, quando os gráficos não estão funcionando direito, como foi o caso de grande parte da prova desse domingo, eu preciso que vocês preencham esse vazio com os dados que eu não tenho. Não que você justifique com o eterno “a Globo não é responsável pela geração de imagem” – porque se fosse só essa a questão não precisava nem de comentarista nacional, não é mesmo?

Outro ponto que fiquei boladíssima: a falta de investimento no produto. Consigo lembrar de pelo menos uns três inícios de temporada nos últimos anos que a Globo ensaiou “novos formatos”, com maior ou menor grau de sucesso, mas estavam lá. Esse ano… nada. E fiquei pensando por que ninguém lá dentro teve ainda a ideia de usar o patrocínio para investir em formatos de conteúdo patrocinado, ao invés de lotar de filme de 30 segundos que não têm nada a ver com o evento.

Case in point: Nescau estava pedindo “menos carros nas ruas” faltando um minuto para a largada. É claro que é o filme principal da campanha, mas, se você já tomou a decisão de patrocinar uma CORRIDA DE CARROS, custa gastar cinco minutos para pensar em um formato adequado e melhorar a eficiência de seu próprio investimento?

A Globo pode muito bem criar um “A Energia do Grid, oferecimento de Nescau”. Entrevistas após o pódio, oferecimento TIM. Top 5 Santander de melhores momentos do GP da Austrália. Não é difícil, gente. E vai fazer um bem danado para sua audiência – e seus consumidores.

Dia das Torcedoras

Estamos de volta em definitivo!

(Espero. Torço. Quero muito.)

Faltando duas semanas para a temporada 2017 da F1 começar, e com os testes na Europa já bombando, estava mais do que na hora de espanar a poeira desse blog. Vou aproveitar a data para falar sobre uma coisa que eu queria ver diferente esse ano – além da maior frequência de posts por aqui.

No início do ano passado, Bernie Ecclestone, então chefe todo-poderoso da F1, deu a seguinte declaração, quando perguntado se acreditava que mulheres voltariam ao grid da categoria algum dia:

“Se existisse alguma capaz, não seria levada a sério de qualquer maneira.”

Vamos dividir essa resposta em dois?

“Se existisse alguma capaz,”

Existem – elas só precisam ser encontradas. Não há qualquer razão científica que diga que mulheres não podem se equiparar a homens no automobilismo. Inclusive, o fato de sermos, normalmente, menores e mais leves é uma vantagem na Fórmula 1.*

*Leitura que vale a pena: “Formula One’s woman problem is bad for business”, Paolo Aversa

Porém, em um mundo onde carros e corridas, não sei porque cargas d’água, não são considerados assuntos “para meninas”, é óbvio que menos garotas terão contato com o esporte e, por consequência, menos talentos serão descobertos e desenvolvidos. Quantas meninas kartistas você conhece?

O que precisamos, portanto, é de igualdade de oportunidades. Antes de cravar se somos capazes ou não, que tal nos dar a mesma linha de largada e ver até onde conseguimos ir?

“não seria levada a sério de qualquer maneira.”

Eu poderia dizer que essa noção só pode estar baseada no fato de que estamos falando com um octagenário com ideias arcaicas e que já demonstrou ser extremamente preconceituoso em diversos aspectos.

Porém, Bernie Ecclestone infelizmente não está sozinho nessa questão – e eu falo com conhecimento de causa. É gritante o machismo presente no universo automobilístico, da falta de pilotas às fotos que focam mais as grid girls do que os próprios carros.

Mas, se você me perguntar, o que mais dói é o que a gente escuta nas arquibancadas. Pode ser sutil, como quando, esperando pelo início da corrida, um espectador se dirigiu (apenas) ao meu namorado – que nem é fã de automobilismo, aliás! Era ele que estava lá me acompanhando, e não o contrário – para comentar sobre a prova.

E pode ser absurdamente claro, como quando, esperando pelo início da corrida, coros machistas vêm disfarçados como “piadinhas”. Um exemplo, particularmente, me incomoda profundamente: um casal desce as escadas das arquibancadas. Imediatamente começa o grito de “Milionário! Milionário! Milionário!”. Não só a mulher está lá necessariamente como um extra do cara, como também ela só está lá porque ele é muito rico para bancar a companhia. Oi? E isso para não falar do que as grid girls têm que escutar…

Quer saber? Você pode não nos levar a sério. As inúmeras engenheiras que trabalham nos carros, as diversas pilotas que já passaram por não sei quantas categorias e já ganharam diversas provas e campeonatos, as kartistas que se inscrevem em cada seletiva, as jornalistas e as duas chefes de equipe de Fórmula 1 discordam de você.

E eu vou bater o pé na porta e ficar do seu lado e provar todos os dias que eu posso entender tanto quanto você, gostar de automobilismo tanto quanto você e merecer tanto quanto você o meu lugar na arquibancada. E se você gritar, eu vou gritar de volta.

Para esse oito de março, meu desejo é que mais meninas brinquem de carrinho. Que mais meninas sejam encorajadas a seguir carreira nas ciências exatas. Que mais pilotas ganhem corridas mundo afora. Que menos pessoas fiquem tão surpresas quando descobrem que eu gosto de automobilismo. Que mais torcedoras não se sintam intimidadas nos estádios e autódromos por aí. O mundo é nosso. A F1 é nossa. As arquibancadas também.

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A pista também!

Vou sentir sua falta, Massa

Ô Felipe Massa! Que saudade que eu vou sentir de você.

Ao lado da chefe Claire Williams, Felipe acabou de anunciar sua aposentadoria da F1 ao fim desta temporada. Ao todo, serão 14 anos na categoria e 11 vitórias.

Tô triste.

Como já comentei aqui algumas vezes, não tenho lembranças da época que Senna corria. Minhas primeiras recordações de Fórmula 1 são ali do final da década de 90. O que significa que minhas referências, portanto, são Barrichello e Massa.

Mas Rubinho, meio porque não soube lidar muito bem com a pressão de ser o “nosso novo herói”, meio porque torcedor brasileiro é bicho chato mesmo, acho que mais sofreu do que aproveitou nos seus anos como principal piloto do país. E eu, que era muito nova, ia na onda do “sempre atrás do alemão” sem nem entender direito a razão das piadinhas.

(Que fique claro que não estou falando que Barrichello é um piloto ruim. Muito pelo contrário.)

Massa não.

Até porque Rubinho estava lá na linha de frente, carregando o grosso das expectativas da torcida, Felipe teve uma liberdade que acho que Barrichello nunca teve. Inclusive a liberdade de ser o enfant terrible da Sauber, arrojado porém sem paciência, tem qualidades mas é muito afobado, poderia ser muito mais mas se perde em erros.

Quando se tornou piloto de testes da Ferrari, deu um passo para trás para dar dois para frente. Virou outro na escuderia italiana, e lá também encontrou em Schumacher – o alemão tão odiado pela torcida – um mentor, exemplo, amigo, como quiser chamar.

O resto é história. Na Ferrari, subiu ao posto de “esperança do povo”, mas a minha impressão é que ele nunca caiu na esparrela de querer corresponder às expectativas a todo custo. Quando corria bem, ótimo. Quando corria mal, vida que segue.

E em 2008, Massa foi campeão. Por trinta segundos, mas foi o mais perto que eu cheguei de comemorar um campeonato de um brasileiro na F1. Rapaz, o tanto que eu gritei em casa não está nos livros.

Superado por Alonso, deixou a Ferrari com resultados inferiores, é verdade, mas com o respeito lá em cima, vide a festa italiana feita em sua homenagem. Na Williams, encontrou ambiente propício para renovação – tanto da equipe quanto dele próprio. Sai, acredito, com a cabeça erguida.

Gostaria de ter ficado mais um ano, dois, três? Acho até que sim. Mas, sem encontrar as melhores condições para correr como queria… pra que?

Se vai correr em outra categoria, se vai aproveitar a fortuna em viagens pelo mundo, se vai começar um crowdfunding para abrir uma hamburgueria, aí é outro capítulo. O que importa é que, por trinta segundos, Massa foi o campeão da minha geração.

Obrigada, Felipe. Vou sentir sua falta.

 

Brazilian Formula One Grand Prix: Race

Fonte: Getty Images

GP da Bélgica: eu quero é confusão

Acho que se faz necessária uma check list do que aconteceu no GP da Bélgica deste domingo:

  • Verstappen criando intriga entre duas Ferraris CHECK
  • Raikkonen pegando fogo nos boxes CHECK
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Gente. Prestenção. (Fonte: @f1)

  • Asa traseira errando os esportes, achando que estava na ginástica artística e tentando um duplo twist carpado CHECK CHECK CHECK
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Tá lindo, tá inovador, tá Salvador Dalí. (Fonte: @grandepremio)

Isso tudo nas duas primeiras voltas. Respira fundo e segue o jogo:

  • Safety car virtual para todo mundo se recompor
  • Safety car real por conta de um acidente tensíssimo com a Renault de Magnussen
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Ai. (Fonte: @f1)

  • que inclusive fez o protetor de cabeça do carro VOAR LONGE, e porque as pessoas não estão investigando isso mesmo?
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A ideia não era proteger a cabeça do piloto? (Fonte: @f1)

Não tinha passado nem do primeiro quarto de prova, e a direção decidiu, com razão, interromper a corrida em Spa-Francorchamps para dar tempo de repor a barreira de pneus. Bandeira vermelha, todo mundo para os boxes.

Aí a coisa deu uma acalmada. O que não é bom.

O problema é que, em regime de bandeira vermelha, todos os carros voltam para os boxes e, enquanto estiverem lá, podem trocar os pneus, o que é a regra mais marmota da galáxia. E olha que essa discussão nem é de hoje – lembram do GP de Mônaco de 2011? Uma bandeira vermelha a três voltas do final permitiu que os primeiros colocados, que estavam com pneus em estados de desgaste completamente diversos, pudessem se equiparar. O que era pra ser um final disputadíssimo virou uma procissão até o final.

Hoje não era nem uma questão de desgaste, mas sim de estratégia. O pandemônio das primeiras voltas foi um prato cheio para as equipes. Massa, por exemplo, fez um pit stop durante o safety car virtual que teria sido a chave para uma boa posição final, não fosse o reset causado pela bandeira vermelha. Tem que ver isso aí. Bom mesmo é caos.

Quem se deu bem com tudo isso foi Rosberg, que liderou tranquilo de ponta a ponta e a turma do fundão. Hamilton saiu de penúltimo para o terceiro lugar do pódio e Alonso, de último para sétimo. Isso significa que Hamilton continua líder do campeonato. Acho é bom. Hamilton pode ser meio mala sem alça, mas Rosberg não dá, gente.

Semana que vem tem Monza – junto com Spa, duas de minhas pistas favoritas. Boas provas para marcar o retorno das férias da F1 (e do abandono deste blog, espero!).

GP de Mônaco: ordens e ordens

Eu tenho a teoria de que é só começar a chover que as pessoas parecem que desaprendem a dirigir, e aí o trânsito vira aquele deus-nos-acuda. Pois o GP de Mônaco desse domingo provou que minha teoria encontra razão mesmo nas ruas chiques e ricas do Principado.

A pista molhada foi a deixa para a corrida começar com o safety car ditando o ritmo. Que foi lento. A prova foi começar mesmo só na sétima volta, e isso depois de Ericsson e Hamilton chiarem pelo rádio, clamando pelo início da bagaça.

Acho que não chegou a completar nem uma volta direito e lá foi Palmer, da Renault, de cara no guard-rail. Logo mais, Raikkonen se embananou no grampo igual um tio velho, quase levando Grosjean e Massa junto. Kvyat, aparentemente ainda em seu inferno astral, não conseguiu completar uma ultrapassagem em cima de Magnussen e foi embora na Rascasse. O próprio Kevin, mais tarde, largou um pedaço do carro na barreira de proteção e abandonou. Verstappen, coitado, não deu uma dentro e terminou a prova também no muro – a terceira batida do fim de semana.

 

Ufa! E, para completar, Nasr e Ericsson, ambos da Sauber, protagonizaram uma batida entre companheiros de equipe, logo depois do brasileiro ter se recusado a seguir ordens de equipe e deixar o sueco passar.

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FUÉN. (Fonte: @f1)

Ordem de equipe que, aliás, acendeu uma discussão interessante no Twitter. Quando seus dois pilotos estão literalmente pagando pela festa toda – como é o caso da Sauber –, qual é a autoridade que a equipe tem de dar ordens? E mais, de dar umas bifas nas orelhas quando os caras armam uma patacoada dessas?

Não que eu ache que Nasr deveria ter obedecido sem questionar, nem que a recusa dele tenha sido motivada pelo fator “tô pagando”. Não deixa passar porque não acha que deve, ponto final.

De toda forma, é uma relação bastante questionável. Ainda mais considerando o fato de que, mesmo com toda essa grana, o carro da Sauber é abaixo da crítica, e a carreira dos dois pilotos vai sofrer com a falta de resultados. Normalmente, a escuderia que deve cobrar um bom desempenho dos pilotos, óbvio. Nesse caso, como fazer isso, se sem o piloto não tem a equipe?

Entre os ponteiros, instruções vindas pelo rádio também foram diretamente responsáveis pelo pódio. Enquanto Ricciardo, pole, sumia na liderança, Rosberg, à frente de Hamilton mas mais lento que o companheiro e com algum problema no carro, recebeu a ordem da Mercedes e praticamente estacionou para deixar Lewis passar.

Com pneus ultramacios, Hamilton foi atrás do prejuízo, e a Red Bull resolveu chamar Ricciardo para os boxes para calçar o australiano com supermacios, que supostamente durariam mais que os ultra de Lewis. Só esqueceram de colocar na conta a marmota monumental que armaram nos boxes, né.

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“Senhor, aguarde mais um minutinho na linha que vamos estar buscando os pneus certos.” (Fonte: @f1)

Ricciardo viu Hamilton passar tranquilo na saída dos boxes. Tentou uma, duas, mil vezes e não conseguiu a ultrapassagem. Os pneus de Hamilton também aguentaram muito mais do que o esperado e Daniel viu pela segunda vez seguida uma vitória escorrer pelo ralo devido à erros da equipe. “Tô puto” resume bem o feeling de Ricciardo no pódio, coitado. Quem estava feliz da vida era Pérez, que ficou na dele, de boas, e tascou um terceiro lugar para a Force India.

Nessa brincadeira toda, quem saiu rindo à toa foi Hamilton. Com a primeira vitória no ano, aliada à corrida sofrível de Rosberg, que foi apenas sétimo, o brother do Justin Bieber (deus.) diminuiu a desvantagem e reassumiu a segunda colocação no campeonato. Senhoras e senhores, 2016 está entregando nos entregando uma bela disputa. Vamos aproveitar.

 

GP da Espanha: história em três atos

Quando a gente vê um filme, por exemplo, a gente sabe que as cenas apresentadas em uma determinada ordem devem culminar em um climax. A ideia é que a gente vá percebendo como a história foi sendo construída até chegar em uma determinada situação.

Isso nos filmes. Obviamente, é muito mais difícil perceber a construção de momentos definidores na vida real. Tudo o que podemos fazer é olhar para o feito já feito e pensar: rapaz, como é que chegamos aqui.

A vitória de Verstappen, o mais jovem piloto e o primeiro holandês a vencer na F1, foi construída em três atos.

KVYAT

O primeiro deles foi a lambança de Kvyat na corrida anterior. Que a Red Bull ia cair matando em cima de Daniil, isso todo mundo sabia. Mas o rebaixamento do russo para a Toro Rosso e a subida imediata de Verstappen para a equipe-mãe pegou todo mundo de surpresa.

Um absurdo, memória curta, não era para tanto, a Red Bull é implacável, queima pilotos, Verstappen não está pronto. O que não faltou foi gente dando pitaco.

HAMILTON

O segundo ato veio pelas mãos de Hamilton. Bom, Hamilton e Rosberg, para ser completamente justa.

Precisando se reafirmar perante seu companheiro, Lewis conquistou a pole position para o GP da Espanha desse domingo e posou de bonzão da galera.

Pois essa confiança toda foi pelo ralo em menos de um minuto. Rosberg, então segundo, largou melhor e ocupou a dianteira logo na primeira curva. Hamilton foi atrás do prejuízo como se não houvesse amanhã, jogou a Mercedes na grama e foi embora direto na lateral de Nico. Os dois fizeram um balé até a brita e fim de prova. É a primeira vez desde o GP da Austrália de 2011 – cinco anos! – que os dois carros da Mercedes abandonam uma corrida.

Hamilton jogou o volante longe e Rosberg saiu do carro irritadíssimo – e com razão, vai. Não é exatamente obrigação do piloto da frente abrir espaço para o de trás. Ainda durante a corrida, toda a cúpula mercediana se reuniu no motorhome para passar o acontecido a limpo. Babado, gritaria e confusão.

FIGHT! FIGHT! FIGHT! (@f1)

FIGHT! FIGHT! FIGHT! (@f1)

VERSTAPPEN

Sem as Mercedes, a luta pela liderança ficou imprevisível: para a nossa alegria, duas Ferrari e duas Red Bull brigando no mano a mano. Verstappen lá na frente, segurando Raikkonen, e Vettel e Ricciardo logo atrás com a faca nos dentes.

O australiano quase que consegue a ultrapassagem e tirou um fino tão fino de Sebastian que esse desandou a reclamar no rádio, mais uma vez: “o que é isso que estamos fazendo? Corrida ou ping pong?”

Na boa, Vettel está voltando a ser o Vettel mimizento do último ano da Red Bull, reclamando de tudo que aparece na sua frente. Amigo, a não ser que sua ideia de corrida seja “abram todos caminho para a minha vitória”, acho que é você que não está entendendo a situação.

Enquanto isso, Verstappen seguia na ponta, com Raikkonen a menos de um segundo de distância. São aqueles momentos surreais das voltas que a história dá: o piloto mais jovem do grid segurando não só um dos mais experientes, mas também justamente aquele que, em sua estreia, também foi considerado jovem demais, precoce, arrojado porém inexperiente.

Confesso que estava quase torcendo contra Verstappen, muito mais por dó de Kvyat – que, coitado, deve ter tido o pior fim de semana da vida.

Mas não é que o menino segurou Raikkonen? Segurou ele, segurou os pneus gastos que vitimaram Ricciardo nas últimas voltas, segurou a barra de ser promovido meio do nada, segurou o ritmo implacável da academia de pilotos da Red Bull, segurou as críticas pela precocidade, segurou até o choro no pódio. Segurou tudo e venceu. Pela primeira vez, mas certamente não pela única.

E você, o que fez com dezoito anos?